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BOLETIM DE ANÁLISE DE CONJUNTURA
OUTUBRO - NOVEMBRO 2001
SUMÁRIO
"Olhando
de maneira crítica a nova ordem mundial, esta nova forma de guerra
fria, que é a mundialização neoliberal, é indispensável que a
comunidade internacional exerça um papel construtivo em favor da
paz no Oriente Médio. Uma nova cultura da paz é necessária, tanto
na Europa, quanto nas regiões da periferia. E ela passa igualmente
por uma necessária mudança na maneira de ver o outro, a partir de
uma exigência de solidariedade. E pela elaboração de uma
estratégia de coexistência baseada na igualdade, no respeito e na
cooperação."
Esta
análise prenunciava a nova situação do mundo depois dos atentados de
11 de setembro de 2001. Apesar de circunscrita aos conflitos do Oriente
Médio, a nova situação do mundo e seus desdobramentos ainda
imprevisíveis apenas ampliaram o campo de questões subjacentes e as
perspectivas de solução.
A
simbologia do medo começa a ocupar os seus espaços com o risco de nos
encerrar a todos num círculo vicioso de desconfianças. Mais do que
nunca se faz necessário o desarmamento dos espíritos e das ações
bélicas.
As
ações militares que os Estados Unidos conduzem no Afeganistão, a
pretexto de combater o terrorismo identificado com Osama Bin Laden,
trazem no seu bojo os equívocos da superpotência que quer solucionar
problemas globais à luz de ressentimentos e sentimentos de vingança.
Essa estratégia poderá conduzir a uma armadilha como aquela que
resultou no fracasso do Vietnã, sem solução à vista para as
questões fundamentais subjacentes aos conflitos.
É
urgente a necessidade de se criarem fóruns mais legítimos, respeitosos
da variedade e das diferenças culturais, realistas com a indigência da
maioria da população das áreas em conflito, onde as questões
nacionais e globais se entrelaçam.
A
chave da segurança global passa pela porta da justa distribuição das
riquezas e pela compaixão humanitária despojada de preconceitos,
investida de tolerância, de respeito pelas liberdades e democracias
reais, sem a pretensa hegemonia em tudo. Hoje, essa pretensão é
alimentada pela onipresença bélica, cultural e financeira dos Estados
Unidos. Numa palavra, eles, como nação, precisam aprender a viver com
as outras nações e respeitá-las dentro de uma política de
interdependência.
Dias
difíceis vivem os trabalhadores no Brasil. Apesar da aparente euforia
com a retomada de índices econômicos favoráveis, as ameaças de
demissões tornam incerto o futuro das conquistas sociais, abaladas
pelas tentativas de flexibilizações das leis trabalhistas que começam
a tramitar no Congresso Nacional. Os índices econômicos são
extremamente voláteis e não indicam mudança substancial na política
econômica e no quadro recessivo de novos investimentos. O país vive os
reflexos da própria insegurança e da recessão mundial.
Os
números estatísticos indicam a continuação da concentração da
riqueza nas mãos de poucos e a evidente hegemonia do capital financeiro
e empresarial. Este pressiona fortemente o governo para mudar as leis
trabalhistas, aproveitando-se do desemprego, da fragilização das
representações sindicais que são, em muitos casos, cooptadas a
aceitar a chamada flexibilização.
O
MEDO
Depois
dos atentados de 11 de setembro de 2001 e após o início dos bombardeios
norte-americanos ao Afeganistão fica a impressão que o medo se instalou
e se globalizou.
Episódios
grotescos e triviais - como a recente prisão no aeroporto de Munique do
escritor paquistanês Tariq Ali pelo simples porte de um livro - mostram a
escalada, quase paranóica, da fobia e do medo. Medo este que começa a
justificar atitudes como o direito "de espionar indivíduos
suspeitos de trabalhar contra a ‘causa do entendimento internacional ou
da coexistência pacífica dos países’". Esclarecido o
mal-entendido, esse episódio deixa a impressão "que a pacífica
coexistência dos países hoje inclui guerra contra alguns deles".
O medo revelado no episódio "foi um pequeno arranhão, mas quando
não tratado, ele pode levar a uma gangrena".
Ao
instalar-se o medo, a democracia corre sérios riscos porque interesses
hegemônicos, como o dos Estados Unidos, diante de deploráveis gestos
terroristas, parecem finalmente ter encontrado o novo adversário após a
guerra fria: o terrorismo, cuja "leitura superficial e
ideologizada da maioria dos analistas" o vincularia "ao
fundamentalismo islâmico".
Fica
no ar uma interrogação: a que propósito se justifica essa escalada de
violência contra um sofrido e desmantelado país como o Afeganistão? "O
atual perigo terrorista, bastante difuso, requer um combate paciente,
cotidiano, mas precisaria de uma guerra? Conduzida contra quem? Contra os
antigos ‘combatentes da liberdade’ afegãos e M. Osama Bin Laden,
formados nas melhores escolas da Agência Central de Inteligência (CIA)?
Contra os talibãs que os Estados Unidos e seus aliados paquistaneses
instalaram no poder? Contra o Iraque, já debilitado depois de onze anos
de embargo? Contra o mundo muçulmano ou contra o Islã, designado por
alguns como o novo adversário?"
Parece
ter chegado o momento de os Estados Unidos reverem sua tradição de
sustentar lutas que dividem o mundo entre bons e maus. Essa ideologia
quixotesca que aquele país encarna serve à dominação e à prepotência
e vem sacrificando vidas humanas, sem nenhum limite. Após a queda do muro
de Berlim pensava-se em poder construir um mundo diferente.
Analistas
acham que os Estados Unidos ainda não se deram conta que já não
funciona a lógica da superpotência. Tal lógica age por categorias
mentais mediante as quais eles sempre "acreditaram que poderiam
responder a todas as ameaças que sofressem através da tecnologia e da
guerra". O fato de sempre serem dominadores e não possuírem,
por exemplo, a experiência de dominados como os europeus, torna-os
inaptos para administrarem ao mesmo tempo vários problemas conjugados que
surgiram com o atentado do World Trade Center. Tampouco valorizam "as
culturas", na sua diferença e pluralidade
O
espectro do medo nasce da injustiça reinante no mundo em virtude das
desigualdades sociais. O número crescente dos pobres e a concentração
da riqueza nas mãos de poucos revelam aspectos de como a globalização
financeira desorganiza os princípios da igualdade e dos direitos das
pessoas e nações. A hegemonia dos Estados Unidos e a força do capital
financeiro que encarnam não lhes permite enxergar outros caminhos. Cansam
os outros países ao pretenderem sozinhos ditar as regras da convivência
universal. Tudo isso fomenta o medo e torna o nosso mundo extremamente
perigoso. Esquecem-se de que "nem o país mais poderoso do mundo
pode andar sozinho no mundo; todos nós precisamos de aliados; até as
super potências".
A
atual guerra desencadeada contra o terrorismo atropela as mais elementares
regras do direito e da convivência internacional. É lamentável perceber
o desprezo a que são relegadas as instituições mediadoras, como a
Organização das Nações Unidas (ONU), que poderiam ser instrumentos de
uma ordem mundial mais justa, menos conflituosa. Há uma contradição
crescente com o movimento de interdependência das nações.
Mesmo
antes dos ataques a Nova Iorque já estava institucionalizada a nova ordem
imperial mediante a hegemonia imposta pela força do capital financeiro.
Este dita suas regras, abala os princípios democráticos das nações
tornadas dependentes, tirando a possibilidade de os governos locais ou
regionais agirem em favor de medidas limitativas e inibidoras da
injustiça social crescente, resultado da concentração da riqueza e de
rígidas regras facilitando a circulação do capital, a liberalização
do comércio e flexibilizando leis de respeito aos trabalhadores.
O
atentado terrorista, lamentável sob o aspecto das vítimas, atingiu em
cheio os símbolos do sistema hegemônico. Ele desnuda as contradições
do sistema financeiro mundial no momento de crescente inquietação com a
desaceleração da economia, espalha o medo, inibe os investimentos, traz
no seu bojo o espectro da crise de 1929.
Há
quem não duvide em afirmar que o atentado terrorista "expôs a
falsa promessa do neoliberalismo. Os terroristas não apenas expuseram a
vulnerabilidade da civilização ocidental. Também mostraram os conflitos
que a globalização pode causar". Perdem forças os axiomas
fundamentais do neoliberalismo "num mundo de riscos globais".
Podem até crescer as vozes pragmáticas no que diz respeito a uma
coalizão mundial contra a pobreza e a favor da solidificação da paz.
Tudo
isso leva a crer na necessidade de outras saídas que não apenas a
militar e policial. Vislumbra-se já o início de um processo que obrigue
o governo e a opinião pública norte-americana repensar suas relações
com o mundo emergente, em especial "com a Europa, com os problemas
humanitários, com a fome, com o meio ambiente".
Já
antes da onda terrorista, o novo governo norte-americano exasperou os
princípios neoliberais da hegemonia de mercado, acenou para a
possibilidade de reavivar a corrida armamentista, diante de estoques de
material bélico passível de se tornar obsoleto e necessitado, portanto,
e ser renovado.
A
política norte-americana já estava na contramão da história ao se
recusar a aderir a tratados como o de controle de poluentes na atmosfera,
bem como ao negar discutir a questão do aumento da pobreza e
concentração da riqueza em ligação com a liberdade de fluxos de
capitais e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais.
A
globalização do medo reavivou atitudes que pareciam banidas das
democracias: a censura prévia aos meios de comunicação, a possibilidade
de medidas de escuta e controle da vida privada de cidadãos, empregados
de empresas e o instrumento da tortura como pressão para obter
informações.
Os
analistas são bastante céticos, após esta escalada militar duvidosa que
certamente não funcionará e que poderá trazer de volta a "lógica
do Vietnã". Infelizmente não há evidências de que os Estados
Unidos estejam para iniciar "uma reflexão interna sobre a maneira
como enxergam o mundo e sobre as causas dos atentados". Conforme
analistas as poucas vozes sensatas e isoladas que se ouvem afirmam "que
uma guerra é absolutamente sem sentido". Tal advertência pode
ser inócua, pois "para realmente afastar o terror do terreno que
lhe é fértil, só há um caminho: a crítica emancipatória ao
totalitarismo global da economia".
CORTES NO
EMPREGO
A
recessão mundial já estava latente e progressivamente anunciada mesmo
antes dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Alguns analistas
descreveram a sua rara sincronia, A tendência de retração do mercado de
trabalho se consolidava. Aquele dia fatídico provocou uma hemorragia de
demissões, começando nas empresas aéreas. Nos EUA, elas cortaram mais
de 100.000 postos de trabalho em setembro. Os números são alarmantes.
Fala-se de mais de 1.000.000 de cortes possíveis só no turismo, e muitos
outros nos setores automotivos e de bens duráveis. É como se os
atentados, de repente, aparecessem como catalisadores da demissão de
funcionários. Cortes tão numerosos como os anunciados nestes últimos
dias não se improvisam; estavam previstos antes do terror.
É
verdade que, nos EUA, o mercado de trabalho muito flexível está sempre
em forte movimentação. Os postos de trabalho podem aparecer tão
rapidamente como desapareceram. As demais economias não têm essa
capacidade de adaptação. A onda de demissões se propaga nos EUA, na
Europa e em muitos outros países. A recessão já chegou, e muitas
empresas sabem que a retomada, se houver, será lenta, mais lenta do que o
previsto. O contágio, nada animador, ameaça o Brasil conforme recentes
informações.
Mesmo
sem ainda conhecer os efeitos diretos do terror e da guerra na economia,
vislumbra-se uma forte desaceleração, entre muitas incertezas.
Institutos de previsão de bancos (JP Morgan, Chase Manhattan) estimam que
a freada em 2001 e 2002, em nível mundial, pode ser a maior nos 30
últimos anos. Dia 26/9, o FMI apresentou seu plano prevendo um
crescimento de 2,6% em 2001 e de 3,5% em 2002, sem considerar os efeitos
dos atentados. Já o Banco Mundial prevê um crescimento de apenas 1% nos
EUA em 2001 e 2002. O conjunto de medidas econômicas na Europa e nos EUA
depois dos atentados, especialmente a queda nos juros que já está em
torno de 2% ao ano, foram medidas que podem exorcizar a recessão e ajudar
o reaquecimento dos investimentos.
Nota-se
que as perspectivas de crescimento são mais favoráveis na Rússia (4% em
2001 e 2002), na China (7,5% em 2001 e 7,1% em 2002), e na Índia (4,5% em
2001 e 5,7% em 2002), três países que não respeitam rigorosamente as
indicações neoliberais preconizadas pelo Fundo Monetário Internacional
(FMI).
Nesse
contexto de muitas expectativas, o FMI, no final de setembro, sem
considerar os efeitos dos atentados, reduziu o crescimento de Argentina e
Brasil a 1,7% em 2001 contra 4,2% em 2000. Em abril a previsão ainda era
de 3,7%.
No
Brasil, a onda de demissões começou bem antes do 11 de setembro. A alta
do dólar, a crise energética, a indefinição do quadro político e o
marasmo econômico mundial fizeram sentir os seus efeitos desde julho. No
inicio do ano , o governo anunciava um crescimento de 4,5%; hoje ficaria
feliz se houver 2%. Não há investimentos e os créditos são mais caros.
O país poderia precisar de dois anos para sair dessa crise. O impacto no
mercado de emprego é direto. No Estado de São Paulo, desde junho, só na
indústria houve mais de 22 mil demissões, ou seja, mais do que todos os
postos criados no ano 2000. Estima-se que o país deva perder entre 600 e
800 mil empregos este ano por causa da recessão e da crise energética. A
Varig e Embraer já anunciaram cortes de 10% dos postos de trabalho. E
essa tendência vai se alastrando em outros setores.
A
crise atinge principalmente os setores dos bens de consumo durável
(automóvel e eletrodoméstico); no turismo, a ocupação dos hotéis é
apenas de 30% da capacidade. E o nível de desemprego aumentará ainda no
começo de 2002. Muitos trabalhos não serão criados por causa da
recessão. À caída de 1% de crescimento corresponde a não criação de
entre 350 e 400 mil postos. A onda de demissões é tão profunda que o
estado estuda ajudar áreas com maior geração de empregos, em particular
as pequenas e médias empresas.
Essa
situação alarmante obriga-nos a ficar atentos à situação de muitos
novos ou antigos desempregados e de suas famílias. A questão do trabalho
e de desemprego é mais atual do que nunca e a criação de trabalho é a
chave da luta contra a fome e a miséria.
As
Igrejas, mediante as suas instituições e as suas pastorais sociais, têm
um conhecimento e uma proximidade da situação do mundo do trabalho, das
dificuldades e das respostas positivas, podem e devem prestar todo o seu
apoio a todas as iniciativas para a criação de formas alternativas de
trabalho, apesar de ser um contexto novo e diferenciado pelas pressões
neoliberais da economia.
AMEAÇA AOS
DIREITOS TRABALHISTAS
Só
na perspectiva de querer acentuar ainda mais o predomínio da lógica
neoliberal sobre o conjunto das relações trabalhistas pode-se entender a
proposta do governo de modificar, ainda antes do final do ano, as bases da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Essa modificação
representaria, ao nosso ver, um grave retrocesso, cujas conseqüências
poderiam ser mais importantes que se quer admitir. Trata-se de uma
proposta perigosa de parte do governo, à qual as Igrejas, fiéis à sua
tradição de dar a prioridade ao trabalho sobre o capital, não podem
deixar de manifestar sua crítica. A proposta do governo corresponde à
última fase do processo de flexibilização das leis trabalhistas
implementada nos últimos anos: é a eliminação de vários direitos dos
trabalhadores. As Igrejas devem prestar o seu apoio às organizações de
trabalhadores que lutam pela sua dignidade e pela coesão social.
O
governo propõe que a negociação e o acordo entre empregados e
empregadores prevaleçam sobre as leis reunidas na CLT. Hoje pode-se
negociar só o que está fora do que a lei determina; o governo quer que
se possa negociar tudo. Assim por exemplo: hoje são 30 os dias de
férias; segundo o projeto de lei do governo, empregadores e empregados
poderiam acertar apenas 20 dias; ou poderiam decidir uma semana de 48 ou
52 horas de trabalho em vez de 44; ou que parte da remuneração
dependeria da produtividade de cada trabalhador; ou outras formas
semelhantes.
A
crise do desemprego e as mudanças na organização do trabalho requerem
alterações nas leis trabalhistas, mas não para reduzir ou suprimir os
direitos que protegem e melhoram a saúde e as condições de vida dos
trabalhadores, adquiridos após anos de luta. O governo e o ministro
Dornelles em particular parecem não ter vergonha nenhuma quando atuam
pensando: já que a situação é muito difícil para os trabalhadores, é
o momento oportuno para aumentar as vantagens das empresas. Na sua
proposta aparece sem sombra o propósito de aumentar ainda mais a
transferência da renda dos trabalhadores para as empresas. Trata-se de
renegociar as poucas proteções e vantagens conquistadas pelos
trabalhadores numa relação de poder totalmente desigual.
Em
qualquer negociação, a proteção do trabalhador é precisamente a lei.
Se a negociação supera a lei, o trabalhador fica sem nenhum amparo. Fica
submisso à vontade do empregador que dita as suas condições. E o
trabalhador que não as aceitar fica fora, demitido. E se o ‘acordo’
(que não é outro senão aquele que o empregador decide) prevalece sobre
a lei, o sindicato fica ele também sem mais recurso para defender os
direitos dos trabalhadores. Quem defenderia o trabalhador se a
negociação se dá entre empregador e empregado? Uma tal revisão da CLT
enfraqueceria ainda mais os sindicatos e diminuiria o seu papel já
bastante limitado pelas profundas mudanças no mundo do trabalho. Não
existe negociação autêntica sem um mínimo de igualdade entre os
negociadores. E a negociação é a base da coesão e integração
sociais.
BRASIL:
AS DIFICULDADES CONTINUAM
Há
no Brasil, desde os primeiros dias de novembro de 2001, uma certa euforia
entre os analistas econômicos. A flutuação do dólar é de tendência
para baixo. Parece que a situação nossa é diferente da Argentina. Para
alguns analistas esta distância deve ser bem entendida, uma vez que "o
desfecho da crise Argentina ainda será muito importante para o
Brasil", sobretudo "pelos precedentes que possa abrir
para situações análogas no futuro".
A
expectativa de recomposição do saldo da balança comercial – estimado
em US$ 1,5/2,0 bilhões este ano e de US$ 5 a US$ 10 bilhões no próximo
ano – desencadeou uma onda de otimismo nas páginas econômicas de
alguns jornais, especialmente daqueles mais afinados com as teses e
políticas do governo. Esse otimismo se justificaria pela reversão da
tendência de desvalorização do real nos últimos dias, que expressaria
a mudança de expectativas do mercado em relação à evolução do quadro
externo e o "descolamento" da crise argentina, cujos efeitos
sobre a economia brasileira já haveriam sido absorvidos.
Embora
reflita em certa medida o que vem ocorrendo na superfície da economia,
essa interpretação ignora tanto a instabilidade e volatilidade da
conjuntura atual, quanto as tendências estruturais em curso, que não
foram alteradas pela inflexão ocorrida na trajetória da taxa de câmbio.
Estas tendências se vinculam a quatro aspectos principais:
-
A
desaceleração da economia , que, segundo alguns analistas, deve
reduzir a taxa de crescimento global em 2001 a cerca de 1% e a algo em
torno a 1,5% em 2002. Os últimos dados disponíveis indicam, à
exceção da agricultura, novas quedas no ritmo de crescimento de
diversos setores com relação ao trimestre passado, especialmente na
indústria. Os efeitos dessa desaceleração já se fazem sentir: a
taxa de desemprego aberto nas regiões metropolitanas vem aumentando,
sendo estimada, em setembro passado, em 6,2%. No entanto, como
assinala o Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), esta taxa oculta o
movimento de redução do número de pessoas em busca de emprego
(efeito desalento, provocado pelas crescentes dificuldades para
conseguir um novo emprego, que aumenta o período médio em que as
pessoas permanecem desempregadas e faz com que muitas delas desistam
de procurar emprego). O IPEA estima que desde janeiro de 2000 até
setembro de 2001 700.000 pessoas deixaram de buscar emprego e,
conseqüentemente, foram excluídas da População Economicamente
Ativa (PEA) em relação à qual é calculada a taxa de desemprego. Se
estas pessoas, que permanecem desocupadas, mas já não entram nas
estatísticas de desemprego, fossem incluídas na PEA (como deverá
ocorrer em algum momento no futuro), a taxa de desemprego aberto em
setembro teria sido de 9,2%.
-
O caráter
conjuntural da recuperação relativa do saldo comercial, que
ainda é muito mais conseqüência da diminuição das importações
(devido à desaceleração da economia) do que produto de uma nova
dinâmica exportadora. A política do governo tem tido, até
recentemente, um viés claramente antiexportador. No período 1995/98,
por exemplo, o crescimento das exportações, medido pelo seu aspecto
quantitativo, foi de apenas 2,4% anuais. Enquanto isso, o quantitativo
de importações aumentou a uma taxa anual de 16,9 %. Em
conseqüência, mesmo com relações de preços favoráveis naquele
período, o saldo comercial sofreu uma forte inflexão, passando de um
superávit de US$ 10,4 bilhões para um déficit de US$ 6,5 bilhões.
A desvalorização do real, imposta pelo mercado em janeiro de 1999,
favoreceu, em certa medida, a expansão das exportações e a
substituição de algumas importações. A taxa média de crescimento
do quantitativo das exportações saltou para 7,7% em 1999 e 11,1% em
2000, tendendo a cair em 2001 (a média de janeiro a setembro de 2001,
influenciada pela concentração sazonal das exportações
agropecuárias, atinge 9,9%). Já o quantum das importações caiu
espetacularmente em 1999 (-15,0%), voltando a aumentar com o miniciclo
de crescimento em 2000 (+13%) e retraindo-se novamente em 2001 (média
janeiro/agosto de 6,5%) com a queda no ritmo de atividade econômica.
Tampouco mudou a estrutura da pauta de exportações. O aumento das
exportações, apesar da redução dos preços internacionais nos
últimos dois anos, tem sido sustentado pelos produtos básicos.
Permanece igualmente pequena (estimada em 29% do total) a proporção
de produtos exportados que se enquadram na categoria de
"dinâmicos" (produtos cujos mercados se expandem
sustentadamente a uma taxa mais elevada que os demais). Agregue-se
que, com a retração da economia mundial e a crise argentina, o
cenário externo não é propriamente favorável à expansão das
nossas exportações. Portanto, a obtenção de saldos comerciais mais
elevados depende do aprofundamento da recessão interna e/ou da
elevação da taxa de câmbio (salvo na hipótese de que o estado
banque, com mecanismos inovadores, uma política agressiva de
substituição de importações e de diversificação e expansão das
exportações).
-
O
agravamento das restrições pelo lado do financiamento externo, tanto
devido ao cenário global adverso (a retração dos fluxos de
investimento externo e o aumento da "aversão ao risco", que
podem acentuar-se em conseqüência dos desdobramentos das ações
bélicas norte-americanas, da moratória argentina e de uma eventual
nova crise asiática) quanto pela permanência de volumes ainda
extremamente elevados de necessidades de financiamento externo que a
economia requererá nos próximos anos. O país tem um déficit
estrutural na conta de serviços, decorrente das políticas de
endividamento externo privado e de abertura irrestrita ao capital
estrangeiro, que elevaram o passivo externo bruto de US$ 207 bilhões
em 1994 para mais de US$ 420 bilhões em 2001. Somente os itens de
juros e remessas de lucros e dividendos absorvem o equivalente a
aproximadamente 40% da nossa receita de exportações. Os encargos
totais desse passivo (incluindo, além dos itens anteriores, as
amortizações da dívida externa) praticamente consomem a totalidade
da receita de exportações. As necessidades globais de financiamento
externo (déficit nas transações correntes do balanço de pagamentos
mais amortizações da dívida externa) situam-se entre 55 e 60
bilhões de dólares neste e no próximo ano. Com a retração dos
fluxos de investimento direto e as dificuldades crescentes de rolagem
da dívida externa (as captações de recursos externos se encontram
atualmente em um nível equivalente a 50% do verificado no ano
passado) a situação tende a se complicar. Os financiadores externos
estão restringindo os empréstimos e financiamentos somente a
empresas que possam dar garantias (a receita futura de exportações,
o que significa, como é caso da Votorantim e de outras empresas que
fizeram contratos similares, que os dólares obtidos com as
exportações dessas empresas não ingressam ao país, sendo
depositados diretamente nos bancos no exterior). O fluxo de
investimento direto este ano deve situar-se em torno a US$ 16/17
bilhões e o déficit das transações correntes está estimado em US$
24 bilhões, o que deixa um buraco a ser financiado de 7 a 8 bilhões
de dólares. É difícil fazer previsões para 2002, mas as
tendências apontam no sentido do aumento das dificuldades dada a
provável redução do investimento direto (não há mais "jóias
da coroa" para privatizar) e a vulnerabilidade do país a choques
externos.
-
A
aceleração do crescimento da dívida interna, que tende a
amplificar pressões desestabilizadoras e, dentro da filosofia
do atual governo, aprofundar o ajuste interno (leia-se recessão) da
economia. Até setembro, a dívida líquida do setor público tinha
acumulado um aumento de R$ 108,8 bilhões (já deduzido o superávit
primário de R$ 41,2 bilhões), decorrente do aumento da taxa de juros
e, principalmente, da desvalorização do real. Em porcentagem do PIB,
a dívida passou de 49,4% em janeiro para 54,8% em setembro, fechando
o mês em R$ 671,9 bilhões. As projeções apontam para um montante
de R$ 700 bilhões no final do ano, equivalentes 56% do PIB.
Aproximadamente a metade da dívida pública está indexada ao dólar
(dívida pública externa mais títulos cambiais). Os juros nominais
no período janeiro-setembro somaram R$ 61,4 bilhões. As
possibilidades de desaceleração do crescimento da dívida interna -
e, portanto a redução dos efeitos deste crescimento sobre as
expectativas do mercado - estão diretamente ligadas às trajetórias
da taxa de câmbio e da taxa de juros. Em ambos casos, as perspectivas
não são claras: a revalorização do real ajuda a diminuir a
dívida, mas prejudica a recuperação do saldo comercial; a
diminuição da taxa de juros teria um efeito similar. A superação
dessa armadilha supõe uma ação deliberada e intensa do Estado,
coisa que parece ainda distante dos critérios da atual
Administração. As tendências espontâneas da economia vão no
sentido de manter as pressões sobre o câmbio e limitar as
possibilidades de diminuição da taxa de juros.
Como
se vê pelos dados, os economistas mais eufóricos esquecem-se do contexto
mundial ao qual estamos atrelados pelas medidas políticas e econômicas
do atual governo. Esquecem-se, ainda que as análises econômicas não
podem desvincular-se dos contextos sociais, humanos e da qualidade de vida
das pessoas. Esquecem-se também de que alívios passageiros fazem parte
da especulação financeira, onde os mais espertos lucram com as
variações do mercado. Esquecem-se de analisar as tendências mais
profundas do sistema global financeiro, cuja auto-sustentação, a
continuar no ritmo em que está, é bastante questionável mesmo pelos
partidários da economia neoliberal de mercado. O chamado "Dissenso
de Washington" é cada vez mais uma realidade. Esquecem-se os
economistas de que o receituário neoliberal não é tão eficiente como
se imaginava. Analistas insuspeitos mostram caminhos novos e eficazes
trilhados por alguns países como a China, a Rússia e a Índia que "enfrentam
a queda global", resistem "à completa integração na
economia mundial, retendo vestígios de socialismo e de mercados
protegidos".
Brasília,
22 de novembro de 2001
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