BOLETIM DE ANÁLISE DE CONJUNTURA
AGOSTO-SETEMBRO 2001
SUMÁRIO
Há várias vertentes que
se entrecruzam na realidade da conjuntura atual. Nenhuma fala mais
forte do que as imagens e os fatos acontecidos em 11 de setembro
de 2001: os ataques ao World Trade Center em Nova Iorque e ao Pentágono
em Washington. É o efetivo começo do novo milênio e da nova ordem
global, agora com as marcas do desnudamento humilhante dos dois
grandes símbolos dos detentores do poder hegemônico: dinheiro e
segurança.
Já não é apenas a hegemonia do capital financeiro
que perturba e traz apreensões ao mundo globalizado sob a sua influência.
Preocupa o próprio rumo das ações que se seguirão, daqui para frente,
contra os opositores da atual ordem econômica neoliberal e hegemônica.
A reação a qualquer oposição a essa estrutura é imediatamente criminalizada,
como aconteceu na recente reunião do G8 - grupo que reúne as sete
nações mais ricas do mundo e a Rússia.
Tudo o que significou a recente reunião em Gênova
do G8 –, que revelou uma nova etapa da crescente mobilização contra
a chamada ordem financeira neoliberal, passa a ser reinterpretado
à luz do da imprevisibilidade do que aconteceu e do que pode acontecer,
como reação, diante dos fatos de 11 de setembro de 2001.
Em contrapartida a essa mobilização, são assustadores
o isolamento em que acontecem tais reuniões e os métodos de repressão
utilizados contra os manifestantes. Métodos esses de fazerem inveja
aos tempos do nazismo e do fascismo. Tais métodos evidenciam os
padrões que aos poucos começam a ser adotados pelas nações mais
ricas. Exemplo disso é a nova política externa perfilhada pelos
Estados Unidos após o presidente Bush assumir a presidência.
Os protestos antiglobalização ampliam o debate
e a oportunidade de se rediscutir a questão da pobreza em relação
às grandes disparidades mundiais, que não cessam de crescer. Os
organismos financeiros internacionais não têm vontade política de
discutir a questão sob a ótica da justiça e da distribuição das
riquezas objetivando a superação efetiva das desigualdades, com
reflexos na política nacional de instauração dos direitos sociais
universais.
Há visíveis sinais de recessão no cenário do bem-estar
das nações mais ricas do mundo, o que traz dúvidas quanto à exeqüibilidade
da prosperidade universal que elas dizem pretender criar.
A crise argentina traz muitas dúvidas quanto à
conveniência de se prosseguir na submissão aos ditames da ordem
financeira mundial. Delineia-se um futuro incerto e difícil para
uma população agraciada, no passado, por avanços nos direitos sociais,
que hoje caminha célere para a pauperização.
Os reflexos respingam na conjuntura brasileira.
Uma antecipada e discutível renegociação com o Fundo Monetário Internacional
(FMI) cria visível proteção a novos atores do jogo de sucessão política
no Brasil. Aliás, cada vez mais o quadro de sucessão política passa
a dominar a conjuntura nacional, onde candidatos e propostas se
entrechocam na discussão dos rumos da nação.
Continua em foco a questão da corrupção. Apesar
dos acenos à moralidade pública mediante a aprovação de um Código
de Ética por parte do Congresso Nacional, fica ainda a impressão
de que se trata uma cortina de fumaça para encobrir privilégios
e a difusa sensação no imaginário popular de que existe a impunidade,
ou de que apenas os pobres são punidos neste país.
Mal-Vindos ao Terceiro Milênio
"Onze de setembro de 2001,
dia 1 do terceiro milênio. Um crime de lesa-humanidade. Nada a comemorar.
A queda do World Trade Center e a demolição de
Nova Iorque inauguram a era do supercontrole total. Somos todos
terroristas. Até mesmo provando o contrário.
O inimigo quase-invisível (terrorismo) transformará
os "incômodos" do sistema em cruéis inimigos. Em alvos
justificáveis. Entre eles, os críticos do projeto americano (da
globalização neoliberal) de todas as partes.
A garantia da ordem justificará a perseguição.
O sistema de defesa, o fim da privacidade e o controle total da
informação. Qualquer ameaça, a violência.
Não, o gigante não encolheu. A sua desmoralização
não o torna anão. Seu poder armado é hoje do mesmo tamanho do dia
10 de setembro de 2001. Mas deve se tornar maior. Esse crime será
utilizado para ampliar exponencialmente investimentos em defesa
e em controle.
Quanto ao poder político? Também cresce. A diplomacia
internacional será solidária às decisões da Casa Branca. Até porque
haverá aliados e inimigos.
A sociedade do terror é ainda pior do que a dos
dias de hoje. O terceiro milênio começa agora e, infelizmente, lembra
1984, Blade Runner e Saramago, em seu Ensaio Sobre a Cegueira.
É certo que a onda de sangue que invadiu hoje o
centro do poder já reina na periferia do mundo. Mas ilude-se quem
imagina que desse crime brotará consciência. O fruto provável é
mais violência.
Mais controle. Como não há um inimigo visível,
eles dependerão das conveniências.
Há chances? Sempre. Mas elas dependem em muito da
sociedade civil internacional, com destaque para a norte-americana,
que terá peso significativo e precisa ser convencida de
que a alternativa que deve ser proposta pelo seu governo não
é a melhor. E que isso pode tornar as coisas muito piores. Para
todos."
"Dir-se-á que um deus andou a semear ventos
e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo
certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o ‘fator
Deus’, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos
onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem,
esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias
mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer,
esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por
fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença...)...não
peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe
rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão,
que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o
que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie
do ‘fator Deus’. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse
é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e
desgraçadamente continuará a demonstrar-se"
Aos poucos surgem as análises em torno dessa
substancial e imprevisível mudança ocorrida, em poucas horas, na
realidade histórica universal a partir dos fatos que aconteceram
nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. Indiscutivelmente
começa uma nova era e se espera que daqui para frente sejam diferentes
as relações entre os seres humanos. É certo que é impossível continuar
insistindo em perpetuar a hegemonia dos países ricos. A fragilidade
dos sistemas de defesa do país mais rico do mundo tornou-se evidente
pela simplicidade de um ato de vingança perversa, execrável e condenável
sob todos os aspectos. Vive-se num mundo de grandes possibilidades,
mas ao mesmo tempo extremamente vulnerável. Foram atingidos os maiores
símbolos da hegemonia norte-americana: o centro de poderio bélico
e o núcleo financeiro do país. Está em andamento a lógica da vingança
insana que pode alimentar o fanatismo dos dois lados.
Ao assumirem a própria identidade, como império
econômico e nação hegemônica, os Estados Unidos apenas estão colhendo
o que semearam no mundo inteiro. Inclusive os possíveis autores
deste gesto de vingança devem ter sido discípulos ou, em muitos
momentos, instruídos, pagos e utilizados para os fins deste plantio
hegemônico. Alguns deles certamente estão dentro do próprio país.
Cabe aqui relembrar que não se pode cair numa armadilha
de também procurar os culpados entre os que, de alguma forma, lutam
para atingir as causas da violência insana. Pois "diante
do fato consumado é preciso ter a capacidade de examinar em profundidade
e coerência as raízes dessa atitude irracional de ódio e terrorismo".
"É preciso constatar que a realidade da exclusão social e a
humilhação a que são submetidas tantas pessoas depõem contra a verdade
da fraternidade religiosa e da cidadania universal."
A busca pelos responsáveis pelas desigualdades
e humilhações - raiz de todas intransigências e discriminações -
em nenhum momento se identifica com o círculo vicioso da violência
e da lógica vingativa.
Apesar de não ser a melhor hora para que acontecesse
esse insano atentado, pois ele acirra os radicalismos xenófobos,
cresce a consciência de onde estão os fatos geradores desse desespero:
a extrema pobreza e desigualdade entre as nações e a dominação de
uns países sobre os outros. O pior que pode acontecer será a caça
indiscriminada às bruxas, que não distinga o ato vingativo e insano
da permanente, insistente e tenaz perseverança dos que querem uma
globalização diferente da que aí está. Tentar um caminho novo e
diferente é mais urgente e precioso do que gastar bilhões em recursos
financeiros, apenas para garantir falsas e frágeis seguranças.
Todos os que almejam ser cidadãos de um novo mundo
possível precisam continuar unidos, mesmo sabendo-se diferentes,
num gesto de confiança mútua. Utopia? Talvez, mas trata-se do único
caminho para se restabelecer a confiança na dignidade do ser humano,
despojado e sentindo-se órfão nesse momento doloroso.
O rompimento do ciclo de extrema pobreza e da dominação
de uns países sobre os outros deveria agora, mais do nunca, unir
as pessoas, nações e instituições, tentadas a fazer vingança a qualquer
preço. Uma espiral de violência agora, geral e indiscriminada, seria
o início de um suicídio coletivo que jogaria por terra a oportunidade
única do "anúncio de tempos novos para a humanidade".
Pobreza, Globalização e Antiglobalização
O tratamento
empírico do problema da pobreza e de indigência ganha grande evidência
nos anos 90 a partir da disseminação dos estudos do Banco Mundial
(Comissão Econômica para América Latina - CEPAL) e do Plano das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ambos se esmerando
no manejo de técnicas estatísticas úteis para medir certas características
dos fenômenos da pobreza e das privações humanas analisados.
O enfoque empírico presta-se à massificação da
informação com fácil apreensão por meio de gráficos, tabelas, histogramas
e números em geral sobre as situações da pobreza. Estes recursos
certamente são instrumentos importantes para se diagnosticar e planejar
ações de políticas concretas. Mas em geral a linha da pobreza, como
ela é empregada pelo Banco Mundial, insere-se numa estratégia bem
precisa de política social, cuja linguagem, conteúdos e recomendações
servem em geral de contra-ponto e/ou abafamento aos critérios da
política social de caráter universalista e de afirmação de direitos
sociais.
É importante esclarecer estes diferentes critérios,
distinguindo-os daquilo que estou chamando de "linha empírica"
da pobreza para não confundir sobre suas diferenças.
O Banco Mundial estabeleceu uma medida de linha
de pobreza em trabalhos ainda da década de 1980, estabelecendo o
padrão renda monetária pessoal mínima de US$ 1,00 (um dólar per-capita-dia)
como parâmetro definidor dos pobres.
A partir do seu critério de pobreza, os estudos
e recomendações de política social produzidos pela Banco Mundial,
mas também recomendados por outras agências internacionais das Nações
Unidas e ou do Tesouro norte-americano, definem um critério de focalização
das ações do governo aos indivíduos situados abaixo da linha de
pobreza. Para o restante da sociedade, cujos indivíduos supostamente
não seriam credores de bens públicos, tais como saúde pública, previdência
pública, educação pública e outros serviços públicos, induz-se o
acesso direto o mercado, recorrendo-se aos serviços mercantilizados,
sob as formas de planos de saúde, planos de seguridade e outros
similares.
Os critérios do Banco Mundial, aparentemente prioritários,
da focalização sobre os pobres contêm vários momentos de construção
teórica e prática que, em geral, não são explicitados.
Isolam-se os pobres mediante uma cerca empírica
da linha de pobreza, que prescinde de causalidades. Os pobres são
cadastrados por algum outro indicador numeral e, finalmente, são
submetidos à tutela dos programas de ações meritórias e transitórias,
oriundos do governo. Tais programas geralmente são acompanhados
de grande publicidade e envolvimento da figura senhorial do primeiro
mandatário e/ou de sua primeira dama. O mérito e a ética dessas
ações são avidamente disputados pelos dirigentes, enquanto aos pobres
se lhes confere a condição de objeto ou de massa de manobra política,
de caráter circunstancial.
No discurso de seus dirigentes e dos áulicos internos
em cada país, a política social do Banco Mundial calcada na linha
da pobreza seria a única que combateria a desigualdade e evitaria
o desperdício de recursos públicos, impedindo o deslocamento dos
gastos sociais para os "ricos".
Diferentemente do discurso empirista da Linha da
Pobreza do Banco Mundial, a CEPAL construiu medidas um pouco distintas
de "Linhas de Indigência e de Linha de Pobreza , mas essas
construções empíricas não estão impregnadas de recomendações explícitas
da política social, como no primeiro caso.
Por último há que se mencionar a contribuição do
"Relatório sobre o Desenvolvimento Humano" do PNUD que,
desde 1991, elabora medidas de Privação Humana e o seu inverso –
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), estabelecendo um "ranking"
internacional sobre estatísticas do desenvolvimento humano.
Por trás do IDH do PNUD há uma teoria do desenvolvimento
humano, fortemente inspirada na contribuição da Amartya Sem e que
se diferencia claramente do discurso do Banco Mundial. Essa teoria
preconiza dotação de capacidades ("entitlements") providas
pelas políticas públicas, como via de superação das privações humanas.
É, em certo sentido, muito mais próxima da "Linha da Cidadania",
embora não seja formulada desta forma.
Ninguém melhor também do que Amartya Sen, prêmio
Nobel em Economia de 1998, para nos fazer compreender o que está
por trás do complexo conflito que envolve a questão da pobreza,
da globalização e dos protestos antiglobalizantes que se ampliam
em escala mundial.
"As dúvidas sobre a ordem econômica mundial,
que se estendem para além dos protestos organizados, precisam ser
encaradas à luz da presença simultânea de pobreza abjeta e prosperidade
sem precedentes no mundo em que vivemos. Mesmo que o mundo seja
incomparavelmente mais rico do que no passado, é também um lugar
de privações extraordinárias e atordoante desigualdade. É preciso
que tenhamos em mente esse contraste elementar quando consideramos
o ceticismo generalizado quanto à ordem mundial e até mesmo a paciência
do público geral com os protestos ditos antiglobalização, a despeito
do fato de serem muitas vezes frenéticos, tumultuados e até violentos.
Os debates sobre a globalização merecem uma compreensão mais clara
das questões subjacentes, que tendem a ficar submersas sob a retórica
do confronto, de um lado, e as respostas apressadas, de outro."
É importante, na hora presente, compreender e discernir
o que está acontecendo, para que as expectativas "de um
novo mundo possível" do Fórum Social Mundial não sejam
frustradas.
As discussões sobre a possibilidade de um novo
mundo nos obrigam a refletir sobre a as verdadeiras dimensões do
fenômeno da globalização. Na verdade os protestos que hoje se generalizam
são atitudes profundamente globalizadas. Tanto é verdade que a ordem
financeira estabelecida e os seus prepostos, como se viu na recente
reunião do grupo G-8 em Gênova, são capazes de fortes atitudes inibidoras
e argumentos que visam a desmoralizar a luta para superar a pobreza
e a desigualdade.
Os grupos fortemente reprimidos em Gênova querem
antes de tudo que a globalização em curso não seja pura e simplesmente
refém do generalizado consenso neoliberal. Os manifestantes que
hoje se deslocam para diversas partes do mundo querem, antes de
tudo, dar uma amplidão universal às suas queixas.
A tentativa obstinada e insistente dos dirigentes
das nações de criminalizar os opositores da globalização neoliberal
se explica pela sua crescente rejeição junto à opinião pública.
Daí porque os contestadores são caracterizados "como geneticamente
violentos".
Os partidários de uma nova mundialização conseguiram
importantes vitórias quando houve um recuo do Acordo Multilateral
de Investimentos (AMI) em outubro de 1998 e determinaram o fiasco
da Rodada do Milênio em Seattle, novembro de 1999. Estas vitórias
desmoralizaram sob o plano ético os princípios e a prática dos donos
do capital e dos mercados. Em contrapartida tornaram-se mais eficazes
as lutas em favor de um outro tipo de globalização. Como não há
base científica para desmoralizar os opositores da globalização
financeira, resta o caminho de criminalizá-los ou de ou acusá-los
de "inimigos dos pobres". Mesmo sem uma proposta
mais profunda de mudança do atual sistema financeiro global, e seus
efeitos nefastos no crescimento da pobreza, há quem proponha reações
mais civilizadas à chamada antiglobalização.
Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 podem
trazer apreensões aos partidários da antiglobalização neoliberal.
O clima desencadeado com aqueles acontecimentos pode fazer recrudescer
forte reação contra todos os que sejam, de alguma forma, contrários
à "obsessão com o mercado livre encarnada pelo fenômeno
da globalização" e pela política norte-americana. O que
há de mais dramático é a utilização da comoção do momento com fins
políticos Além de se tentar coibir as liberdades civis dos cidadãos,
qualquer pessoa que em algum momento tenha sido contrária à doutrina
norte-americana ou saliente os limites do mercado livre poderá indiscriminadamente
ser politicamente perseguida.
Analistas insistem que há forte pressão da opinião
pública norte-americana no sentido "de transformar os sentimentos
de horror e de luto em sentimentos de vingança". Mesmo
sem saber exatamente quem é o inimigo, pode haver retaliação e conseqüentes
desdobramentos que acirrarão novos antagonismos onde a parte mais
fraca estará sujeita a processos "de desumanização que tornam
impossível a negociação, o compromisso e a institucionalização dos
conflitos". Ademais os antagonismos farão crescer o descrédito
com as soluções democráticas.
Discursos e Políticas Recentes
de Luta Contra a Pobreza no Brasil
O período histórico que efetivamente nos interessa
analisar, no contexto dos discursos e políticas de luta contra a
pobreza, é o período demarcado a partir da Constituição de 1988.
A própria Carta Constitucional por um lado e o processo coetâneo
de imposição de uma nova ordem econômica neoliberal nos anos 90
por outro, são vetores contrapostos de discursos e práticas sobre
a pobreza que longe estão de terem sido desvendados nas suas implicações.
Com isso pretende-se esclarecer como se dá o ingresso
do tema da pobreza na agenda política recente e explicitar as grandes
diferenças de enfoque que provêm de diversas visões teóricas e políticas
oriundas desses dois movimentos – o da nova ordem constitucional
e o de nova ordem econômica neoliberal.
Por outro lado, seria por demais reducionista circunscrever
o debate sobre a pobreza a esse jogo dialético do período recente.
Na realidade esse processo político recente adquire significado
e perspectiva muito mais claros quando se o ilumina pela leitura
histórica de nossa formação econômica em três passagens cruciais
das relações sociais estruturantes: 1) na passagem do regime agrário
das sesmarias para o regime do mercado de terras (Lei de Terras,
1850); 2) na passagem do regime de trabalho escravo para o regime
de trabalho livre (1888); no processo de industrialização e urbanização
intensivas do pós-guerra, sem alterações profundas nos regimes agrários
e de trabalho, herdados da ordem social anterior.
Este texto tenta articular a perspectiva histórica,
naquilo que ela tem no presente de continuidade e aprofundamento
das questões da pobreza e da desigualdade no Brasil. Por sua vez,
ao se resgatar a pobreza ao centro da agenda política nos anos 90
(Estrutura Constitucional), veremos que os problemas da pobreza
e da desigualdade estarão sendo ao mesmo tempo exacerbados pela
emergência de uma ordem econômica ainda mais excludente. É nesse
ambiente político-econômico neoliberalista que emerge um outro discurso
de combate à pobreza, apoiado nos indicadores empíricos e orientações
de política social inspiradas pelo Banco Mundial.
Por vezes se ouve no discurso professoral do Presidente
da República a afirmação de que a estrutura agrária no Brasil é
um problema não resolvido do século XIX. Dito desta forma parece
que no século XIX a elite política oligárquica cristalizou perpetuamente
uma estrutura agrária que todas as demais gerações da elite do poder
receberam e conservaram, sem que neste processo houvesse qualquer
responsabilidade política. Na verdade esta é uma meia verdade, que
se presta muitas vezes ao discurso daqueles que nunca admitem mudanças
estruturais, atribuindo sempre aos fundadores da ordem social injusta
a responsabilidade por sua continuidade histórica até o presente.
De fato, há alguns momentos cruciais de nossa formação
econômico-social em que a elite política realizou estrategicamente
um jogo pesado de atraso social. O ano de 1850 é um desses momentos,
com a promulgação da Lei de Terras, elaborada por um Parlamento
de grandes proprietários rurais, receosos do fim do tráfico de escravos,
imposto pela Marinha Britânica. A Lei de Terras consagrava os direitos
das sesmarias preexistentes, registrados nas Paróquias e Comarcas
do interior; e preceituava o critério do mercado (compra e venda
mediante intermediação do dinheiro) como único critério legítimo
para obtenção de novos direitos de propriedade, além evidentemente
das heranças.
Sob a égide dessa Lei iniciou-se nos anos 60 do
século XIX a solução para o problema da mão-de-obra na lavoura cafeeira,
mediante intenso fluxo migratório europeu, incentivado pelos próprios
cafeicultores, e só excepcionalmente pela Coroa, sob salvaguarda
de uma Lei Agrária que impedia os imigrantes de se estabelecerem
diretamente na agricultura familiar. Nesse contexto, ainda mais
grave ficou a situação dos escravos negros, libertos pela Lei Áurea
de 1888. Sem dinheiro ou qualquer proteção legal, não puderam se
estabelecer na própria lavoura, na qual praticamente trabalharam
a vida inteira. O século XX, portanto, vai conhecer um regime de
trabalho livre no Brasil muito diferente do chamado mercado de trabalho
europeu ou norte-americano da mesma época.
Na verdade aqui entre nós forjou-se uma imensa
massa de homens livres e totalmente dispossuídos de meios de subsistência,
cuja inserção em um mercado de trabalho nacional, urbano e industrial,
somente se daria de forma mais significativa no pós-guerra, durante
a forte expansão da nossa industrialização substitutiva de importações,
que praticamente se esgotou no final dos anos 70 (século XX).
É importante ter em conta que a solução conservadora
no campo agrário - combinada com a forma como se dera à abolição
e à imigração (européia e asiática) - e o processo tardio da nossa
industrialização e urbanização no pós-guerra configuraram em praticamente
cem anos de história econômica e social um mundo do trabalho profundamente
dependente de relações pessoais e patrimoniais. Forjaram-se neste
universo inúmeras relações de trabalho, estranhas ao contrato monetário,
tais como a moradia, a parceria e o colonato no mundo rural, e os
múltiplos arranjos dos serviços pessoais, auto-ocupações, trabalho
doméstico, "agregados", e outros no mundo urbano, e ainda
um enorme setor de subsistência no interior e nos franjas não utilizadas
economicamente pelo latifúndio.
Essa forma perversa de incorporar terra e trabalho
ao sistema econômico não mudou com a industrialização do pós-guerra.
É bem verdade que já no 1.º governo Vargas se inicia um processo
crescente de extensão e Consolidação das Leis do Trabalho (1941),
dirigido ao mundo urbano e às categorias estratégicas da economia
de então. Esse processo sociopolítico, que acompanha em ritmo retardatário
o nível de incorporação da força de trabalho às atividades industriais
e urbanas, terá atingido seu ponto de máximo (no campo econômico)
no final dos anos 70 e início dos anos 80, com a exaustão do modelo
de crescimento industrial do pós-guerra. Neste ponto do tempo (1980),
ainda era muito expressivo o tamanho do setor informal do mercado
de trabalho (algo como 40% da população economicamente ativa - PEA
estaria fora do critério contratual do Ministério do Trabalho e
da Previdência Social). Desde então até o presente, passados 20
anos de relativa estagnação econômica, o setor informal do mundo
do trabalho somente tem crescido e no interior dele as formas precárias
de relação de trabalho, o desemprego aberto ou disfarçado e também
os níveis de pobreza e indigência associados.
A herança histórica do "mercado de trabalho"
e do "mercado de terras", combinados com um modelo de
modernização e industrialização no pós-guerra, sem mudança das relações
sociais estruturantes são os grandes eixos reprodutores da pobreza
em nosso país.
A estrutura jurídica da Constituição de 1988 inova
qualitativamente o enfrentamento da pobreza e da desigualdade, tratando-os
no cerne de sua construção doutrinária. Essa inovação rompe com
a tradição puramente declaratória dos princípios constitucionais
e vai bem mais longe, como adiante se demonstra.
As inovações a que estamos fazendo referência estão
postas em três momentos constitutivos do ordenamento jurídico: nos
princípios e direitos fundamentais; na estrutura de estado habilitada
a executá-los, e nas diretrizes setoriais específicas das políticas
sociais.
No âmbito dos princípios, a "erradicação
da pobreza e da marginalização" constituem objetivos fundamentais
da República, declarados em seu art. 3.º. Mais adiante a Constituição
inova a partir do art. 5.º ao estabelecer os "direitos e
garantias fundamentais - individuais e coletivas", explicitando
os direitos sociais (artigos. 6 a 11) e não apenas os individuais
como direitos fundamentais. Mas é na construção das estruturas –
Organização do Estado, Organização dos Poderes e Tributação e Orçamentos
– que a Carta trará um rumo bem caracterizado no sentido do resgate
dos direitos sociais: a instituição de um Orçamento de Seguridade
Social, autônomo da gestão das autoridades fiscais e financeiras,
financiado por contribuição sociais específicas à Previdência, Saúde
e Assistência Social é peça fundamental desse ordenamento jurídico.
Finalmente a Constituinte dá o fecho na sua construção
jurídica, elencando nos vários capítulos da "Ordem Social"
e também da "Ordem Econômica" o conjunto de diretrizes
específicas da política social que configurariam a cidadania social
e o arremate na luta contra a pobreza e a desigualdade, declarados
nos seus princípios fundadores.
As diretrizes da política social contidas nos capítulos
sobre "Seguridade Social", "Educação, Cultura e Desporto",
"Ciência e Tecnologia", "Comunicação Social",
"Meio Ambiente", "Família, Criança e Adolescente
e Idoso", "Índios" e "Função Social da Propriedade
Fundiária e Reforma Agrária" são plenamente consistentes com
as idéias do estado do bem-estar e da universalização de direitos
sociais.
Observe-se que os critérios da universalização
de acesso de todos os cidadãos aos direitos sociais e o princípio
de participação dos interessados na gestão das políticas sociais
e descentralização federativa estão claramente configurados no texto
constitucional, bem como os meios de financiamento correspondentes,
mediante sucessivas vinculações orçamentárias, como é o caso da
Seguridade Social.
Toda essa construção jurídica refletiu um movimento
de democratização contra o regime militar, cujo ápice é a própria
Constituinte. O tempo que a sucede, os anos 90, é marcado por um
movimento contrário de destruição de direitos sociais e afirmação
do poder hegemônico das políticas neoliberais e/ou de alinhamento
a uma certa "globalização dependente". Por essa razão
podemos com convicção assinalar que o resultado da aplicação das
políticas sociais citadas ficou muito aquém daquilo que prometera
a Constituinte. E mesmo nos avanços concretizados, a exemplo da
seguridade social e da reforma agrária, houve forte ação reversiva
no final dos anos 90, capitaneada pela Reforma da Previdenciária
e pela "Reforma Agrária de Mercado", ambas de autoria
do Governo Fernando Henrique Cardoso.
No Brasil tem-se acentuado no debate político concreto
um crescente afastamento dos setores sociais e até mesmo burocráticos
envolvidos na aplicação (ainda que mitigada) das políticas sociais
de corte universalista (por exemplo, Saúde e Previdência) daqueles
ligados ao discurso da linha de pobreza do Banco Mundial. Estes
trabalham com idéia minimalista do gasto social, em geral associada
à compatibilidade compulsória dos mesmos com a necessidade de geração
de superávits primários orçamentários para servir à dívida pública.
Exemplo recente dessa estratégia entre nós é o Fundo Constitucional
da Pobreza, emenda constitucional promulgada em 2000, que desloca
a política da pobreza para uma discussão anualmente focalizada nos
gastos orçamentários, restritos a menos que 0,5% do Produto Interno
Bruto (PIB). Elabora-se ainda nesse campo uma idéia de "Orçamento
Social" focalizado, quando o próprio orçamento da Seguridade
Social, já constitucionalizado desde sua origem, tem sido sucessivamente
bloqueado pelas Emendas do Fundo Social de Emergência (1994) do
Fundo de Estabilização Fiscal (1996) e desvinculação da Receita
da União (1999).
Conclui-se que, passados mais de dez anos da promulgação
da Constituição de 1988, declaradamente uma Carta cidadã em matéria
de direitos sociais, os resultados concretos obtidos neste período,
na luta contra a pobreza, são precários e em certo sentido contraditórios
com os rumos da política social ali traçados.
Na prática política concreta dos anos 90, o contrafluxo
da liberalização econômica e da forma de globalização dependente
arquitetada pelos governos posteriores à Constituinte atropela o
avanço de direitos sociais. Geram-se alguns progressos na área de
seguridade social, na aplicação do princípio da função social da
propriedade fundiária, na mobilização pela ética na política e na
luta contra a fome e a miséria. Mas, mesmo estes avanços políticos
são mitigados. A luta ideológica contra a pobreza é substituída
no imaginário popular por uma estratégia técnica internacional de
focalização das políticas sociais no campo da "linha da pobreza",
erigida pelo Banco Mundial e por seus áulicos internos como prioridade
máxima de toda a política social. Isto evidentemente não se afirma
como norma hegemônica para toda a política social, mas como pretensão
de pautar a orientação política.
No debate político mais geral, diríamos que as
teses de afirmação de uma política social cidadã se contrapõem à
tese da focalização na linha da pobreza, enquanto estratégias gerais
de enfrentamento das causas estruturais e históricas da pobreza
no Brasil. Os conceitos que envolvem uma e outra estratégia diferem
significativamente no tratamento que se dá ao pobre e na relação
deste com o estado. Mas há evidentemente ações e programas comuns
em uma e outra estratégia, como por exemplo, a idéia de renda mínima,
cuja forma de institucionalização universal como direito do cidadão,
ou como dádiva do Príncipe, demarcam as diferenças aqui ressaltadas.
Brasília, 20 de setembro de 2001 |