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BOLETIM DE CONJUNTURA
OUTUBRO/NOVEMBRO DE 2000

SUMÁRIO

Complica-se o quadro internacional em virtude do acirrado conflito entre israelenses e palestinos. O desgaste político, em particular da liderança palestina, tende a exacerbar os radicalismos de parte a parte. Grave, ainda, é a questão internacional do petróleo.

Os constantes alertas das autoridades financeiras internacionais não têm sido suficientes para reverter o quadro de expectativas negativas ocorrido recentemente nas bolsas de valores internacionais. O "pouso suave" da acomodação da economia norte-americana a essa nova realidade e as expectativas de mudança política com as eleições presidenciais nos Estados Unidos podem transformar-se num turbulento momento de imprevisíveis conseqüências.

No Brasil as eleições municipais estiveram em destaque. Importa verificar o real significado do avanço dos votos dados aos partidos de oposição. Tudo indica que o eleitor está mais crítico em relação ao atual sistema de governar o país.

Há real satisfação com o bom êxito dos gestores locais que foram reeleitos, bem como boas expectativas e confiança naqueles que se elegeram em cima de propostas em beneficio do bem comum, vindas ao encontro das aspirações populares.

Nota-se uma grande independência em relação a programas partidários irreais e ideológicos. O voto foi dado muito mais em função do desejo de transparência e ética no trato da coisa pública, tema dominante na opinião pública nestes últimos tempos.

Percebe-se também uma certa euforia – positiva ou negativa – por parte dos parciais ganhadores. Há um risco de se caminhar em direção a uma mudança de poder sem mudar a fundo o projeto político do país. A verdadeira oposição pode se perder nesta busca de um novo caminho ao fazer tantas concessões para se proteger politicamente como alternativa de poder.

Ao que tudo indica, faltam ainda à oposição audácia e coragem para dar um salto de qualidade em plano nacional. Trata-se de crescer captando o protesto do povo e, ao mesmo tempo, a sua legítima aspiração. Em outras palavras, "como aproveitar a bênção sem atrair a desgraça".

A campanha do segundo turno marcou uma certa reviravolta. Ressuscitaram-se os velhos fantasmas contra as oposições, numa clara atitude de terrorismo ameaçador, o que interrompe o sucesso do primeiro turno. Espalhou-se que a esquerda é sempre a mesma e está ligada com tudo aquilo que de abominável possa existir nos movimentos sociais, numa orquestrada campanha de contra-informação, típica dos tempos da ditadura militar.

É sempre inquietante o constante e progressivo aumento da pobreza e concentração da riqueza, em particular no Brasil.

PANORAMA INTERNACIONAL

Judeus e Palestinos

Dois pesos, duas medidas. O que torna crítico o relacionamento entre judeus e palestinos remonta ao pós-guerra, onde ficou estabelecido o direito "de Israel de ter o seu estado e a negativa de que os palestinos pudessem usufruir do mesmo direito". É esta a questão central do conflito.

O processo de entendimento entre palestinos e judeus tinha tudo para dar certo. Foram quase dez anos de intensas negociações e, de repente, as relações se deterioram. Há de se buscar uma explicação mais plausível para o fracasso. Está claro que o radicalismo vem crescendo em ambas as partes. As facções intolerantes de Israel tudo fazem para estancar o processo de paz. Os radicais palestinos, em contrapartida, criam o Comitê de Forças Nacionalistas e Islâmicas, uma reedição do Comando Unificado da Intifada, começando a se impacientar como as suas lideranças.

É bem verdades que as autoridades israelenses têm sido pródigas em romper os tratados celebrados em Oslo em 1993. O pomo da discórdia situa-se nas constantes ocupações das áreas palestinas por colonos judeus e na questão da parte leste de Jerusalém, pretendida pelos palestinos como adequada para estabelecimento da capital do seu futuro estado. Há a resolução 242 das Nações Unidas "que constrange Israel a se retirar rumo às suas fronteiras antes da guerra de 1967 e, portanto, a restituir a parte leste de Jerusalém, conquistada por ocasião daquele conflito, que inclui o conjunto da Cidade Velha onde se encontram os lugares santos das três religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo". Ocorre que Israel que manter a unidade da sua "capital eterna".

Um dos pontos de equilíbrio nas negociações seria também manter o livre acesso a Jerusalém para todos os fiéis das três religiões monoteístas, bem como para todos os povos que o desejassem. Seria uma forma de tirar do conflito o componente religioso.

Arafat, líder palestino, sente-se investido da qualidade de zelador dos lugares santos das nações islâmicas e não concorda com essa unidade eterna. Compreende-se melhor, à luz dessa dupla dificuldade política com forte componente religioso, o porquê do fracasso das negociações.

A crescente violência dos conflitos, permeada pelos compromissos políticos internos tanto de Barak quanto de Arafat, expõe as estratégias de ambos. Enquanto Barak perde apoio e se isola entre os seus partidários, Arafat consegue "reativar o apoio do mundo árabe e islâmico à causa palestina". Esse apoio e a recente realização da cimeira árabe no Cairo podem tornar cada vez mais difíceis as relações de Israel com o esse imenso mundo vizinho. A radicalização dos conflitos, assim, é quase inevitável e o futuro delineia-se sombrio para toda a região.


MOMENTO NACIONAL

Ainda as Eleições

É evidente o amplo espaço conseguido pelas oposições, em especial o Partido dos Trabalhadores (PT), nas últimas eleições municipais. As boas administrações locais, em particular nas grandes cidades, funcionaram como alavanca dos votos populares. Importante também foi a generalizada indignação contra a corrupção na administração pública. É uma nova onda que atinge o Brasil "formada pelo profundo descontentamento com o estado de coisas em nosso país".

Entre as muitas análises, destaca-se a rapidez com que o sistema econômico, político e cultural hegemônico procurou desfigurar o avanço da conquista política das esquerdas e das oposições.

Há sempre um dilema latente em quem não acredita na possibilidade real de se buscar alternativa para o país. Para esses, fora dos atuais caminhos não há chances para outras opções. Parte-se do princípio de que é impossível pensar algo diferente do atual modelo econômico submisso à globalização financeira e aos ditames do capital volátil, sem pátria, ávido de lucros fáceis. Desdenha-se a possibilidade de se construir um sistema que não perpetue a desigualdade na distribuição da riqueza que, entre nós, é uma das maiores do mundo.

É cedo ainda para verificar os efeitos práticos desse novo espaço político conquistado pelas esquerdas e oposições. É inevitável a sua repercussão sobre os rumos do país nesses próximos anos na medida em que as alianças mantenedoras do atual esquema de poder forem se desgastando ou se definindo por outros espaços.

Uma das maneiras mais comuns de obscurecer tal debate é enfatizar que a atual política econômica não foi julgada nas últimas eleições. Na verdade essa posição é meramente defensiva e foge da questão central da voz oriunda das urnas.

A voz do povo foi muito clara: quer participar, aprova aquilo que está sendo feito localmente para recuperar o bem comum do cidadão e já não tolera o esbanjamento e a corrupção às custas do dinheiro público.

A questão central para aqueles que defendem o não julgamento da atual economia do país é a de como enquadrar as futuras administrações a partir dos atuais horizontes de decisões políticas. Estas definem o serviço ao bem comum cada vez menos como direito do cidadão e dever do estado. Na verdade, na lógica da atual maneira de gerir a coisa pública conta mais o lucro e a pseudo-eficiência da iniciativa privada do que os resultados em bens e serviços transferidos aos cidadãos. E mais ainda, com a grande transferência patrimonial ocorrida nos últimos anos, onde o dinheiro público passa às mãos da iniciativa privada, tornou ainda mais difícil priorizar benefícios sociais em ordem ao bem comum.

A mesma lógica coloca importantes decisões políticas do país à mercê das corporações transnacionais, seja de organismos reguladores e controladores do capital financeiro como o Fundo Monetário Internacional (FMI), seja dos novos controladores multinacionais adquirentes dos grandes complexos estatais privatizados. É claro que, neste contexto, as decisões políticas priorizam o lucro das corporações e a eficiência da tributação pública.

A qualidade de vida das pessoas e, conseqüentemente, o desenvolvimento do país, contudo, não se medem apenas por ganhos econômicos imediatos. Há investimentos cujos resultados em termos de valor humano somente se medem por critérios políticos de outra ordem.

O espaço político criado pelas recentes eleições municipais precisa ser ocupado com uma nova ótica, diferente daquela que é hegemônica hoje no país. As principais lideranças percebem a importância de definir rumos novos e não apenas aparecer como "palatável ao regime".As novas administrações majoritárias saídas das urnas não podem sucumbir diante de análises tipo camisa de força ou versões enfraquecidas de um passado combativo, militante e de programas definidos a partir dos grandes excluídos dos benefícios da sociedade. Há espaços para alianças de governabilidade sem perder o horizonte maior: um projeto popular de erradicação das desigualdades, aprofundando os princípios da participação cidadã dos próprios excluídos.

Qual o alcance do projeto "Combatendo a Corrupção Eleitoral" nesta primeira avaliação do resultado das eleições?

Que propostas apresentar aos movimentos populares e entidades da sociedade civil organizada para a continuidade da luta contra a corrupção eleitoral?

Como despertar as igrejas, seus movimentos pastorais, sua espiritualidade, para estarem em conexão com a consciência de cidadania e participação na vida pública, como exigência de coerente ação transformadora e profética?

No tocante ao futuro, tendo em vista as eleições majoritárias de 2002, mesmo que se possam tirar algumas lições das urnas, importa estar atento ao quadro político e social. Há incertezas quanto aos exatos rumos do país em decorrência do quadro mundial e latino-americano: a crise financeira mundial que insiste em privilegiar o capital em detrimento de direitos e conquistas sociais, os limites ao crescimento econômico impostos pelo desejo dos países produtores de petróleo de serem novos protagonistas, o crescimento da pobreza e concentração da riqueza, a posição do Brasil como articulador de um projeto de nação independente de países mais pobres e carentes, o pretexto da luta contra o narcotráfico e a ocupação dos espaços amazônicos.

A propósito, sob esse último aspecto, a 4ª Conferência Ministerial das Américas, há pouco realizada em Manaus, AM, terminou melancolicamente e mostrou com clareza a tentativa norte-americana de envolver os outros países naquilo que era o seu principal objetivo: a questão colombiana e o narcotráfico.

Poucos prestaram atenção aos recentes debates, pesquisas e estudos deste problema levados a efeito pelo Banco Mundial, pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) e pela Comissão Econômica para América Latina (CEPAL), órgão das Nações Unidas (ONU). Fala-se com desenvoltura sobre a pobreza, mudam-se as estratégias, mas as políticas decisórias continuam a cultuar "O Mercado como Deus", onipotente, onisciente, onipresente. Nada escapa à sua força avassaladora.

Quando será que se descobrirá a contradição absoluta entre a loucura do crescimento ilimitado, propugnado pelo mercado absoluto, e políticas de manutenção da vida, em especial dos mais pobres e excluídos?

O projeto de uma nação diferente precisa conectar-se também com a onda de indignação mundial que começa articular-se em torno do Fórum Social Mundial a realizar-se em janeiro de 2001 em Porto Alegre, fórum esse que já começa a ser conhecido como o anti Davos. A realização desse conclave significa que as reações à desenfreada globalização da economia iniciam uma fase analítica e propositiva; ela também "já demonstra que o movimento mantém a sua visão de contestação, mas se propõe, ao mesmo tempo, a elaborar visões e proposições alternativas".

 

 


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